De janela entreaberta observo a cidade e a aragem.
Cai a noite, e o vento sopra uma projecção de viagem.
As paredes desintegram-se e com elas vai-se o calor.
Alguém liga o micro-ondas e ele dá o som do motor.
Vou contra um camião fantasma que me atropela a alma.
Perco as rédeas do volante e lá se vai toda a calma.
Estava só no meu país mas fui parar a uma floresta.
Da estrada um trilho cerrado, até que não há uma fresta.
Os mochos piam a direcção mas não consigo entendê-la.
A lua ilumina um pombo a ir louco contra a janela.
Oiço sons de patas ferozes que rondam os arredores.
Entro em pânico, mas não consigo alcançar os estores.
Tento fugir mas em vão, músculos aterrorizados.
Tento fechar os olhos, mas eles estão esbugalhados.
Vim parar a um sítio místico, os sentidos em dormência.
Mas não consigo adormecer para sair desta demência.
Até que se ouve uma música e aos poucos nasce o dia.
Dissipam-se os arbustos e os passos e a azia.
Embalado pelas notas dou por mim de volta a casa.
De regresso à paz do lar, a normalidade extravasa.
Suspiro... mas não sei se aliviado ou nostálgico.
Não sei se pertenço aqui ou àquele lugar mágico...
Olho enfim para a janela e para a rua pequena.
Tudo está conforme mas no parapeito uma pena.
Penso no pombo e há uma questão que em mim ecoo.
Aonde é que acaba a asa, aonde é que começa o vôo?...